30 de maio de 2013
Submissa liberdade
É mais fácil combater a opressão quando se pode reconhecê-la personificada em opressores de carne e osso. A opressão sistêmica impessoal do mundo econômico faz aceitar como liberdade plena o que constitui um aprisionamento da humanidade ao sistema produtor de mercadorias e às suas formas. Não se enxerga uma saída porque sequer o problema é divisado. Parece não haver contra quem lutar em favor da liberdade, afinal, supõe-se que ela já foi atingida. Pode-se apenas reivindicar mais da mesma “liberdade” de produzir, comercializar e consumir para atender à necessidade cega e autocentrada do crescimento; apenas mais da mesma liberdade de ser prisioneiro dessa forma social vazia que torna supérflua a humanidade. A reboque, o abstrato conceito de democracia: o legítimo governo do povo aprisionado às formas não percebidas de submissão.
"A ilusão democrática consiste precisamente em que a forma de vontade transcendental pressuposta e a restrição por ela condicionada da vontade empírica da maioria permanece escondida" (R. Kurz).
11 de fevereiro de 2013
A busca
Quando morei em Niterói, durante o mestrado, dividi um apartamento com dois camaradas de turma: Wellington e Rodrigo. Lembro-me de, tarde da noite, ao ir à cozinha beber um copo de água, ver escapar pela soleira das portas fechadas de cada um de seus quartos a fina banda de luz amarela que transbordava para o corredor escuro do apartamento e indicava que os dois ainda estavam acordados, depois de meia-noite, estudando. Eu não podia me dar o luxo de dormir antes deles.
De uma outra forma, sou sempre estimulado pelo meu amigo Pedro a participar de outra bela competição silenciosa e sem fim: a literatura. Gosto de partilhar o imaginário dos livros que lemos em comum e de colocar na minha lista de leitura os que ele já leu. E cada vez que leio um livro de verdade, tenho vontade de que ele o leia também. Em busca do tempo perdido tem me dado as mais belas sensações afloradas pela palavra escrita.
De uma outra forma, sou sempre estimulado pelo meu amigo Pedro a participar de outra bela competição silenciosa e sem fim: a literatura. Gosto de partilhar o imaginário dos livros que lemos em comum e de colocar na minha lista de leitura os que ele já leu. E cada vez que leio um livro de verdade, tenho vontade de que ele o leia também. Em busca do tempo perdido tem me dado as mais belas sensações afloradas pela palavra escrita.
13 de outubro de 2012
Febre de elefante
Acabei de
escrever muito tarde, quase cedo. Estava cansado, mais que o de costume. O
vento frio que entrava pela janela atingira diretamente minha
garganta. Percebi que estava febril. O corpo doía. Deixei-me cair
na cama ao lado, a luz ainda acesa. Os pesadelos provocados pela febre são sempre terríveis; também as febres provocadas por pesadelos. Se a febre é uma defesa do organismo, seria o pesadelo uma defesa da mente?
Eu era elefante. Eu não sabia, ou não tinha plena consciência disso, mas era elefante. Era difícil
me mover, os espaços eram curtos. Sentia uma grossa carcaça de pele pesando toneladas
sobre minhas costas. Minhas mãos e pés, minhas patas, eram como rochas. Calor,
fazia muito calor. Meus olhos eram sensíveis a tanta luminosidade. Tinha sede e
buscava o mar. Ninguém se incomodava com minha condição. Eu era elefante, mas
não sabia. Os outros sabiam, mas não se importavam. E eu seguia pelas ruas,
entre as gentes. Queria água, um banho, se possível, de mangueira. Cheguei a um
ponto alto. A rua descia em ladeira diante de mim. Pude ver, no fim do declive,
uma mureta que separava o passeio das ondas que arrebentavam do outro lado. Os
elefantes migram? Cheguei até ali por instinto. E foi puramente
instintivo o trote paquidérmico que me fez despencar desabalado do alto da
ladeira em direção à mureta. Corri e quase não era mais um elefante, mas o chão
ainda tremia sob meu estouro solitário. Algumas pessoas na rua me olhavam, mas apenas
com uma curiosidade despreocupada. Eu me concentrava na mureta. A inclinação da
descida se amainava, mas a inércia ainda me impelia como um
bólido. Eu enxergava a mureta se aproximando e já não podia diminuir a velocidade. A tromba levantada, pensei sorrir, mas sobreveio um bramido que
ressoou por todo o universo. Enfim, fui notado. Rompi a mureta e mergulhei no mar.
Acordei livre da febre, mas senti que havia
esquecido muita coisa. A alma humana é muito frágil para suportar o peso
de um elefante.
10 de outubro de 2012
Sons
Rodolfo,
Quando cheguei, não só a luz, mas também o
som era distinto. O som dos carros, esse é o mesmo, do café fervendo, dos
talheres batendo sobre o prato, dos passos na calçada. O que encontrei de diferente
foi o som das pessoas falando entre si em diversos lugares, em diversas situações.
Não era exatamente a voz ou a língua estrangeira que me deslocavam do silêncio
ruidoso a que eu estava acostumado, mas era o som das palavras que eu não
conseguia roubar de uma conversa alheia na rua, no metrô, na fila da padaria. Não
conseguia mesmo se quisesse, como muitas vezes queria, mas não por ser baixo o volume, não
por serem desconhecidas as palavras, mas pela modulação da voz ao cochichar, ao
falar para um outro que não eu, que meus ouvidos não reconheciam como fala, mas como um barulho que me
cercava o tempo todo em lugares públicos.
Outro dia, notei sem querer, como acontece
com a maioria as coisas importantes, que esse som desapareceu. Ele foi substituído
pelo som das pessoas que falam e que eu entendo; um som das palavras como os demais,
apenas em outra língua. As pessoas ao meu redor continuam cochichando como
antes, mas aquele ruído de outrora deu lugar a palavras e sentidos que posso
identificar. A língua me aprisionou enquanto eu caminhava na calçada e não pude
deixar de ouvir o que um casal conversava no bar ao lado. Não posso mais andar por
aí livre e alheio. Entendo os cochichos e isso me permite roubá-los disfarçadamente
de vez em quando.
14 de junho de 2012
lampejos. memoria involuntaria
explodiu um. dois. tres. fogos aqui no céu pela minha janela
ouvi dispararem os alarmes dos automoveis: os trovões em Bogotá
rômulo, a vida é boa por aí?
quatro! a igreja!
é 13 de junho, e aqui se comemora santo antonio.
ouvi dispararem os alarmes dos automoveis: os trovões em Bogotá
rômulo, a vida é boa por aí?
quatro! a igreja!
é 13 de junho, e aqui se comemora santo antonio.
18 de janeiro de 2012
Transcrições noturnas #6
"Não compreendo mais essas populações dos trens de subúrbio, esses homens que pensam que são homens e que entretanto estão reduzidos por uma pressão que eles mesmos não sentem, como formigas, ao uso que deles se faz. Como enchem eles, quando estão livres, seus absurdos pequenos domingos ?
Uma vez, na Rússia, ouvi tocar Mozart numa fábrica. E escrevi isso. Recebi duzentas cartas de injúrias. Nem por isso detesto os que preferem os berros dos cabarés. Eles não conhecem outra música. Detesto, sim, os proprietários dos cabarés. Detesto os que estragam os homens (...)
(...) Há alguns anos, durante uma longa viagem de estrada de ferro, resolvi visitar aquela pátria em marcha em que ficaria por três dias, prisioneiro, durante os três dias, daquele ruído de seixos rolados pelo mar. Levantei-me. Pela uma hora da madrugada corri os carros, de ponta a ponta. Os dormitórios estavam vazios. Os carros de primeira classe estavam vazios.
Mas os carros de terceira estavam cheios de centenas de operários poloneses despedidos na França, que voltavam para a sua Polônia. Caminhei pelo centro do carro levantando as pernas para não tocar nos corpos adormecidos. Parei para olhar. De pé, sob a lâmpada do carro, contemplei naquele vagão sem divisões, que parecia um quarto, que cheirava a caserna e a delegacia, toda uma população confusa, sacudida pelos movimentos do trem. Toda uma população mergulhada em sonhos tristes, que regressava para a sua miséria. Grandes cabeças raspadas rolavam no encosto dos bancos. Homens, mulheres, crianças, todos se viravam da direita para a esquerda, como atacados por todos aqueles ruídos, por todas aquelas sacudidelas que ameaçavam seu sono, seu esquecimento. Não achavam ali a hospitalidade de um bom sono.
E assim eles me pareciam ter perdido um pouco a qualidade humana, sacudidos de um extremo a outro da Europa pelas necessidades econômicas, arrancados à casinha do Norte, ao minúsculo jardim, aos três vasos de gerânio que notei outrora nas janelas dos mineiros poloneses. Nos grandes fardos mal arrumados, mal amarrados, eles haviam juntado apenas seus utensílios de cozinha, suas roupas de cama e cortinas. Mas tudo o que haviam acariciado e amado, tudo a que se haviam afeiçoado em quatro ou cinco anos de vida na França, o gato, o cachorro, os gerânios, tudo tiveram de sacrificar, levando apenas aquelas baterias de cozinha.
Uma criança chupava o seio de sua mãe que de tão cansada parecia dormir. A vida transmitia-se assim no absurdo e na desordem daquela viagem. Olhei o pai. Um crânio pesado e nu como pedra. Um corpo dobrado no desconforto do sono, preso nas suas vestimentas de trabalho, um rosto escavado com buracos de sombra e saliências de ossos. Aquele homem parecia um monte de barro. Era como um desses embrulhos sem forma que se deixam ficar à noite nas bancas dos mercados. E eu pensei: o problema não reside nessa miséria, nem nessa sujeira, nem nessa fealdade. Mas esse homem e essa mulher sem dúvida se conheceram um dia, e o homem sorriu para a mulher; levou-lhe, sem dúvida, algumas flores, depois do trabalho. Tímido e sem jeito, ele temia ser desprezado. Mas a mulher, por faceirice natural, a mulher, certa de sua graça, talvez se divertisse em inquieta-lo. E ele, que hoje é apenas uma máquina de cavar ou de martelar, sentia assim no coração uma deliciosa angústia. O mistério está nisso: eles se terem tornado esses montes de barro. Por que terrível molde terão passado, por que estranha máquina de entortar homens ? Um animal ao envelhecer conserva a sua graça. Por que a bela argila humana se estraga assim ?
E continuo minha viagem entre uma população de sono turvo e inquieto. Flutua no ar um barulho vago feito de roncos roucos, de queixas obscuras, do raspar das botinas dos que se viram de um lado para o outro. E sempre, em surdina, o infatigável acompanhamento de seixos rolados pelo mar.
Sento-me diante de um casal. Entre o homem e a mulher a criança, bem ou mal, havia se alojado, e dormia. Volta-se, porém, no sono, e seu rosto me aparece sob a luz da lâmpada. Ah, que lindo rosto! Havia nascido daquele casal uma espécie de fruto dourado. Daqueles pesados animais havia nascido um prodígio de graça e encanto. Inclinei-me sobre a fronte lisa, a pequena boca ingênua. E disse comigo mesmo: eis a face de um músico, eis Mozart criança, eis uma bela promessa de vida. Não são diferentes dele os belos príncipes das lendas. Protegido, educado, cultivado, que não seria dele ? Quando, por mutação, nasce nos jardins uma rosa nova, os jardineiros se alvoroçam. A rosa é isolada, é cultivada, é favorecida. Mas não há jardineiros para os homens. Mozart criança irá para a estranha máquina de entortar homens. Mozart fará suas alegrias mais altas da música podre da sujeira dos cafés-concertos. Mozart está condenado. Voltei para o meu carro. E pensava: essa gente quase não sofre seu destino. E o que me atormenta aqui não é a caridade. Não se trata da gente se comover sobre uma ferida eternamente aberta. Os que a levam não a sentem. É alguma coisa como a espécie humana, e não o indivíduo, que está ferida, que está lesada. Não creio na piedade. O que me atormenta é o ponto de vista do jardineiro. O que me atormenta não é essa miséria na qual, afinal de contas, a gente se acomoda, como no ócio. Gerações de orientais vivem na sujeira e gostam de viver assim.
O que me atormenta, as sopas populares não remedeiam. O que me atormenra não são essas faces escavadas nem essas feiúras. É Mozart assassinado, um pouco, em cada um desses homens."
Só o Espírito, soprando sobre a argila, pode criar o homem.
Antoine de Saint-Exupéry, Terra dos Homens.
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