23 de junho de 2010

Cortejo de palavras


No auge do meu delírio ante a estupefação diante da linguagem (os homens falam, é fenomenal!), saiu-me uma ideia: a comunicação é um rio. Arbitrário é o signo quando chama ao significado, e por isso frágil, equívoco, falso. Significado que escapa, foge sempre. Dissemos ali, mas é quase ali, próximo dali. Assim pareceu-me então que caminhamos sobre as pedras de um rio, lisas, desconhecidas, escorregadias, úmidas, secas, próximas, distantes. Pedras são as palavras, a linguagem é água corrente. Esta ideia me faz contente. De tal maneira que posso ficar a desfia-la por muito tempo: se, por exemplo, os idiomas seriam rios típicos de regiões diferentes, rodeados por seus tipos particulares de vegetação; se as correntes intensas representam o fluxo da comunicação em transtorno, revoltado pelo turbilhão de informações e usos... Tanta imaginação! É que não me conformo, é inacreditável: falamos! Falamos e fazemos música.

Isso também me fascina completamente: os seres humanos fazem música. Eles usam seus corpos - cordas vocais, membros, pulmões - e acionam os instrumentos musicais que fabricam para produzir música. Como pode? Qual o sentido natural que este gesto tem? Ainda mais se considerarmos o efeito de transe provocado por esta manifestação, na maioria dos casos. Só maluquice: terreiros, shows de rock, salas de concerto, jazz tocado num piano para uma plateia de senhoras da alta sociedade. É gente surda que faz música, gente que perde a insônia, que fica curado do câncer, que dança sozinho. Dizem que até os vinhedos aumentam sua produção ao som de música clássica. Ataca até as plantas! Para mim, é tudo loucura.

Tive outra ideia, dia desses: a música também é um rio. Neste caso, as pedras são as composições, cada música em particular. E a música - toda a Música - manifesta nos sons, é água corrente, passando, livre, incompreensível. Quando alguém faz uma música bacana, acerta uma pedrinha invisível. Uma pedra que estava lá, no meio da corrente, é descoberta. Talvez porque não faça música, só ouça, quando percebo que alguém fez uma composição tocante, comovente, sinto que o músico pisou na corrente e, em vez de cair, descobriu um novo lugar para passar. Atrás dele vem um cordão de corações mais felizes...

Posso imaginar.

Estes dias, entretanto, possivelmente o melhor seria calar. Render mil silêncios a quem disse tão bem o que imaginou. Imaginação sagaz. Mente tenaz. Ele convidou o homem a pensar. Pensar em si e, principalmente, nos seus desatinos. Calar, quando não for algo que valha a pena dizer. Mas aquele bondoso senhor (meu avô de rio) me deixou fantasiar, formular hipóteses poéticas, distorcer o mundo rude, passear pelos cemitérios da razão e da história, suspender a lógica, deliciar as metáforas, duvidar, alcançar os absurdos mais sensatos. Este senhor fazia literatura como quem faz música, decobrindo caminhos invisíveis em uma corrente maravilhosa.

José Saramago morreu. Para resumir, sintetizar ao máximo (valendo-me de irrealizáveis signos; não tenho saída, preciso andar pelas pedras!), vem-me à cabeça duas palavras de sua terra idiomática mãe, na qual eu também fui educado a transitar, de modo que me permito pensar ser esta terra minha também: acefalia e orfandade. Dentro da fantasia do rio da linguagem, não encontro metáfora para abraçar a sua partida. Silêncio.

Não me restava muito a fazer, senão pensar nele (ou ler ou reler algum de seus livros - vai valer a pena). Acabei fechando os olhos e pensei no seu enterro, antes ainda, no cortejo fúnebre. Uma multidão trajando luto acompanhava. Não. Ninguém. Seu caixão ia sozinho, pairando, e, velando desconsoladas e, paradoxalmente, serenas, atrás dele, iam as palavras.


Rio de Janeiro, 23 de junho de 2010.

21 de junho de 2010

Parar e pensar

Creio que a algumas pessoas deveria ser interditado o direito de morrer. José Saramago é uma delas. Costumo dizer que é muito fácil gostar de Van Gogh. É fácil citar um de seus quadros, referir-se ao seu estilo, ao vigor e excelência de sua pintura. É muito comum entrar na casa de um amigo e encontrar a reprodução de um Van Gogh. Tem tudo para ser kitsch, mas é justamente o oposto. Afinal, ele não tem culpa se todo mundo gosta do que ele pintou, ou melhor, se ele pintou algo de que todo mundo gosta. Van Gogh é tão bom que não pode deixar de ser admirado, reconhecido, popularizado. Isto serve apenas para dizer que Saramago é outro desses casos de reconhecimento mundial que se justifica não pela comercialização de sua imagem, de seu nome, não porque virou um produto, mas por aquilo que há de mais digno: o respeito à agudeza de seu pensamento. Comunista e crítico da Igreja Católica, Saramago não deveria ter nenhum espaço nos meios de comunicação, não deveria ser celebrado. Mas negar-lhe o respeito que cabe a um gênio seria impossível. Por isso José Saramago é José Saramago: muito mais que um escritor. Português de Pessoa, comunista e crítico, um velho sábio e incansável que descobriu como fazer mágica com palavras, na forma e no conteúdo. Abram-lhe os microfones e certamente ele falará algo que precisa ser ouvido. Seu assunto, não importa sobre o que tratasse, era sempre o mais digno. Estava sempre a pregar a paz, mas não a paz de fachada, que convém a muitos, e sim a paz verdadeira, que só será alcançada quando os homens puderem se reconhecer em si e nos demais – era isso que lhe interessava. E por isso não poupava críticas àqueles que se comprazem em iludir e mentir. Era um homem comprometido com elucidar, com falar a verdade, com fazer-nos pensar. Para fazer o mundo, disse certa vez, é preciso pensar sobre o mundo. E se faltavam idéias para um mundo diferente, Saramago preenchia com suas palavras o rarefeito espaço das idéias necessárias. Uma vez ouvi dizer que pessoas como o Saramago se alimentam de sonhos e que por isso, quando lhes é permitido, sobrevivem longamente. Deve ser verdade. No caso dele, porém, sempre vou achar que nos deixou cedo demais. Viva Saramago.

11 de junho de 2010

Luzes da cidade

Venha
conte-me algo
mas não precisa se apressar
temos tempo
e não adianta apostar corrida com ele

Fale sobre as luzes da cidade
quantas luzes
o que vê nelas?
Estrelas cintilantes brotando do chão
mera superfície sem profundidade?
Preguntas, miles de preguntas sin respuestas
Enquanto nuvens pesadas se formam entre nós e o sol
Permanecemos, de cá, olhando e vendo
e (não) entendendo
Precisamos viver mais
viver melhor
viver com menos
Muitas luzes me agridem
afinal o Sol já é tanto
que o escuro me é confortável

10 de maio de 2010

Transcrições Noturnas #01

"Daria Mikhailovna estendeu a Rudin um volume em francês.
"Rudin tomou-o, folheou algumas páginas, e depois, tendo-o pousado na mesa, declarou que não conhecia essa obra de Tocqueville, mas frequentemente meditara os problemas estudados na brochura. A conversação retomou seu curso. A princípio, Rudin pareceu hesitar em dizer todo o seu pensamento, exprimindo-se com dificuldade; depois, animou-se, fez-se eloquente. Não havia transcorrido um quarto de hora, e só a sua voz ressoava no salão; rodeavam-no todos, exceção feita de Pigassov, que se manteve obstinadamente afastado, a um canto, perto da chaminé.
"Rudin falava com calor, inteligência e correção; manifestava grande erudição. Ninguém, ao vê-lo, esperaria encontrar nele faculdades extraordinárias... Rudin andava mal vestido e ninguém falava dele! A todos parecia estranho e incompreensível que um homem de tal valor aparecesse tão de repente ali no campo! Isso ainda fez com que surpreendesse mais e encantasse todo mundo, a começar por Daria Mikhailovna... Esta se orgulhava de haver descoberto Rudin e já pensava nos meios de fazê-lo brilhar na sociedade. Apesar de sua idade, havia algo de pueril nesta apreciação tão rápida.
"Alexandra Pavlovna, confessemo-lo, mal compreendeu o que Rudin dizia, mas estava encantada de ouvi-lo; Panedalevski fitava Daria Mikhailovna e tinha ciúmes de seu novo amigo; Pigassov pensava: 'Por quinhentos rublos, eu encontraria um rouxinol melhor que esse!...' Bassistov e Natália eram os que estavam mais maravilhados. O professor por várias vezes escapou de perder a respiração escutando Rudin; estava de boca aberta, olhos arregalados... e apurava o ouvido como nunca o apurara na vida! Quanto a Natália, seu rosto se ruborizara levemente, e seu olhar, fito em Rudin, despedia vivos clarões que logo se extinguiam.
"- Tem uns olhos adminráveis esse homem - murmurou Volinetsev, sentado aos pés dela.
"- Sim, são bonitos.
"- Infelizmente, tem as mãos um tanto grosseiras e vermelhas.
"Natália não respondeu".



In Rudin. Ivan S. Turgueniev.

30 de abril de 2010

A caixinha

Parte 1

Vovó Liberdade, um dia, uma tarde, chorou
Primeiro pensei no tenente,
O tenente que era galante, tal qual um ator de TV

[acho que tinha visto um ator de TV ser esfaqueado nalguma novela, por aqueles dias]

Vovó Liberdade chorava, eu ouvia do quarto, pensava que era o tenente
Meu pai chegou de repente, meteu a mão no rádio, desligou:
- A mãe da sua Avó Morreu.
A mão do meu pai que afundou o botão tinha o peso da morte do pai e da avó que eram dele, quando ele tinha uns oito anos.

[idade que eu tinha quando a Mãe da minha Avó morreu]


Agora,
imagina você, ficar sem ouvir rádio em 1958 ?
E eles ficaram, e a casa ficou fechada, e a Vovó Margarida, que é a minha outra Avó e Mãe dele, ficou de preto;
O caixão ficou fechado, porque o Vovô Jair, o Pai do meu Pai, morreu de acidente.
[parece que ouviram pelo rádio]

Mas era 1958, alguns meses depois, o Brasil era campeão do mundo. O meu pai-menino ouviu de dentro do banho, no rádio, o locutor falando.
Vai ver foi por isso que ele viu tanta poesia naquela história de chutar bola.

O futebol era aquilo da rua e era também um épico passado em terras suecas. E por esse tempo, isso tudo era mais ou menos a mesma coisa.

Agora, eu queria era conhecer essa Suécia, a imaginada por um menino de oito anos, órfão, sem televisão.

Vai ver foi por isso que ele descobriu que aquela vida fria da serra era também uma vida bonita, pra fora do luto.
Vida pra fora assim, aquela que se suspeita, como quem ouve no rádio e imagina.
[mas pra fora e não pra dentro, como a televisão insiste em fazer].

A minha lembrança mais antiga de todas,
é meu pai ajoelhado na cama gritando com a televisão.
Seria o Assis ?
Acho que sim. Já fiz até música.
Mas eu tive que ouvir foi no rádio, anos depois, que ser Fluminense nem era tão ruim assim
[o locutor primeiro disse que o gol era do Aílton, depois corrigiu e disse que era gol do Renato]

Mas por que eu era Fluminense ?
Eu era Fluminense por causa do meu pai
Meu padrinho até quis que eu virasse Botafogo

[Eu perguntei a meu pai se podia. Ele disse que podia. Eu perguntei se podia voltar a ser Fluminense. Ele disse que podia].

E meu pai era Fluminense por causa do pai dele.
Mas como o pai dele poderia ser Fluminense se o Tio Salim, irmão dele, era Vasco e o pai deles dois era Libanês ?
Aí o meu pai não soube explicar. Ou não quis. Ou só quis quando o Fluminense ganhou do Boca
[aí a gente viu o jogo no estádio, bem pra fora mesmo, nem rádio nem TV]

E ele falou que um dia foi mexer nas coisas do pai dele. O pai dele já tinha morrido. Nem podia dizer se podia. E ele achou uma caixinha com as cores do Fluminense.

E o que seria a caixinha ?

Um estojo de carregar botão ?

Mas quem gostava de futebol de botão era o outro Avô meu, que eu conheci, e era Flamengo

Era caixinha de música, dessas que tocam o hino ?

Como será que ela era ?

Deve ser memória mais apagada do que aquela minha do Assis, nem adianta perguntar.

Parte dois:

A caixinha,

Farelo tricolor numa casa em luto,
mal sabia o poder que tinha
a caixinha como aquela outra,
a com válvulas, da cozinha

Era a vida que se suspeita,
seguir sem canção perfeita
era canção de memória apagada,
canção-dor que não cura nada

Era o jogo de bola na esquina
era Pelé e Mané e sua rima

[Tinha um anjo de pernas tornas,
pra que tentar explicar o universo ?
qualquer credo de física quântica é tão inútil como um verso]

Da caixinha viemos, pra caixinha voltaremos
Um dia direi a meu filho, joga bola com os outros meninos:
finge que é um rei preto na Suécia. Essas coisas, às vezes, acontecem.

Às vezes não acontecem, demoram.

Um dia o rei está na barriga
Noutro somos plebeus de final perdida

A caixinha

E talvez fosse de levar doce
E talvez nem conteúdo tivesse
Continente de amor sem razão,
Talvez fosse imaginação

A memória de Wally Salomão,
uma caixinha de papelão

19 de abril de 2010

O 18 de abril de Joel Santana

Marx observa em uma de suas obras que os homens constroem sua própria história, mas não a fazem segundo sua livre vontade, e sim sob as circunstâncias legadas e transmitidas pelo passado. E acrescenta, referindo-se a momentos de grande convulsão social: “A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos” Ontem, o Maracanã foi palco de um desses episódios históricos, mas os fantasmas conjurados não foram outros senão os heróis do passado botafoguense. E se foram pesadelo para alguém, certamente não o foram do lado de cá da arquibancada. Pelo contrário.

Loco Abreu por Maurício, Herrera por Paulinho Criciúma, Jefferson por Ricardo Cruz, o 21 de junho de 1989 pelo 18 de abril de 2010. Vinte e um anos depois daqueles vinte e um anos, a história se repetiu, mas não como farsa. Ao final, o concreto surdo que sustenta o palácio do futebol ecoou mais uma vez o grito de desagravo. Pois quando o Botafogo é campeão, nunca o é sozinho. Quando o baile é em preto e branco, a festa é de toda a cidade. Como um novo tempo de esperança que se inicia, é chegado o momento de reparação das injustiças: isso é o Botafogo campeão.

O grande mentor dessa história estava fora das quatro linhas. Ele não empurrou a bola para o fundo da rede, mas escalou a mística alvinegra como titular e, certamente, foi ela quem fez o time campeão. Difícil imaginar outro personagem para o lugar de Joel Santana nesse momento. Onde havia fraquezas, Joel criou virtudes. À limitação técnica, respondeu com espírito de luta. Se o Botafogo tinha apenas uma jogada, Joel fez dela uma sua arma mortal. Se o time carregava o peso de três anos de derrotas seguidas, isso foi transformado em motivação. Joel colocou silenciosamente entre aqueles onze homens exatamente o que o Botafogo precisava. Ele os untou para realizar a história. Os jogadores, entretanto, não fizeram essa história conscientemente. Mas mesmo sem saber, construíram-na em conformidade com a tradição de um passado mítico e glorioso. Talvez por isso tenham sido tão competentes para inaugurar um novo capítulo na história alvinegra. Maracanã, 2010, 2x1, 21 anos depois de 21 anos. Joel fez desses homens Botafogo. Eles souberam ser Botafogo. Um dia, no futuro, serão eles os heróis evocados.